PARA SEMPRE
- Juan Ricthelly Vieira da Silva
- há 13 minutos
- 3 min de leitura

Uma relação são dois indivíduos únicos tentando harmonizar-se, buscando uma sintonia que os coloquem no mesmo rumo.
E isso não é lá algo fácil de se fazer. E grande parte das brigas se dá em função disso, são ajustes sendo feitos.
E o relacionamento é como um ser vivo que nasce, tem uma infância, uma adolescência, uma fase adulta, a velhice e em algum momento a morte.
Essa foi uma verdade que demorei a entender, quando a ouvi pela primeira vez, fiz uma careta de insatisfação, me esforçando para não crer, já que naquele momento vivia na infância de minha relação atual, e me doía ouvir aquilo e ao menos cogitar a possibilidade de que fosse verdade.
Em algum momento desejamos de forma sincera o ‘felizes para sempre’, mesmo sabendo que ele não existe para nós, pobres mortais, e nessa loucura a gente começa a repetir isso mentalmente a todo instante, depois em frente ao espelho até que fique convincente o bastante para olharmos nos olhos do outro e mentirmos de forma sincera, de que ficaremos juntos para sempre.
Certa vez me recusei a mentir.
— Promete que vai ficar comigo para sempre?
— Não posso!
— Hã?!
— Não posso! Não posso prometer algo que não me pertence! O amanhã não me pertence!
Ela fez uma careta de decepção.
— Nossa! Você é um chato! Custava mentir só dessa vez?!
— Sim! Custaria muito!
— Custaria o quê?
— A certeza de prometer algo incerto!
— Aff!
Hoje olho para trás e vejo que não custava nada mesmo, já menti tantas outras vezes na vida, tendo certeza de que estava a mentir e mesmo assim menti, então a questão não era uma mentira plausível, talvez a promessa de garantir algo tão incerto como um relacionamento eterno aos dezoito anos de idade, já quebrei outras promessas também, mas eram de curto prazo, então também não era a questão de quebrar uma promessa, afinal não costumamos prometer algo planejando não cumprir, então qual o problema? Porque diabos não posso prometer que ficaremos juntos para sempre?
Como posso prometer algo que não me pertence? Algo que não está ao meu alcance. Que vai infinitamente além da minha vaga e insignificante existência em um grão que flutua ao nada, ao redor de uma bola de fogo que um dia morrerá como tudo?
Não posso! Me perdoe! Mas não posso!
Seria uma honra compartilhar a eternidade ao seu lado, mas sequer sei o que é a eternidade, não tenho a mínima noção do que é isso.
O que faríamos nós dois com tempo juntos? Melhor, com todo o tempo juntos?
Certamente faríamos muito sexo, mas até isso talvez perdesse o sentido.
Conversaríamos sobre tudo, sobre como a vida era boa mil anos atrás, sobre como foi triste o fim da humanidade, e já quando não tivéssemos mais nada para conversar naquele idioma, aprenderíamos outro até esgotá-lo, seguindo para outro, outro e mais outro, até chegarmos no incompreensível mandarim, e quando já não tivéssemos mais línguas para aprender, inventaríamos tantas outras mais, até nos cansarmos e as palavras também perderem o sentido.
E algum dia, medida de tempo essa que não mais importaria, nos olharíamos nos olhos e veríamos o infinito neles e em seu brilho, e nos conheceríamos tão bem e tão profundamente, de uma maneira que já não mais saberíamos quem eram quem, por talvez termos nos convertido em uma só alma derramada por dois corpos.
Depois de tudo isso, chego até a desejar o ‘para sempre’, não sei bem o que as outras pessoas pensam ou desejam quando se prometem algo assim, eu prometeria se fosse para ser dessa forma que escrevi.
Mas não posso! O amanhã não me pertence! E o para sempre não é para nós, pobres mortais de carne e osso, fadados ao apodrecimento, e ao ostracismo.
E já que não posso prometer, só me resta mentir com sinceridade, só me resta dizer a mentira que me recusei a proferir um dia.
Então sim querida!
Te prometo que ficaremos juntos para sempre!
Com a única condição de que você jamais se esqueça de que o para sempre, sempre acaba!

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