JUAN RICTHELLY E A ÚLTIMA GERAÇÃO ANALÓGICA
- Juan Ricthelly Vieira da Silva
- há 7 horas
- 4 min de leitura
Documentário + Exposição + Roda de Conversa

Nesse domingo (16/08), logo após o jogo do Gama, teremos a estreia do minidocumentário ‘Juan Ricthelly e a última geração analógica’, acompanhado de uma pequena exposição de itens antigos que não encontramos mais com tanta facilidade por aí, seguido de uma roda de conversa sobre o documentário e os temas relacionados a ele.
O documentário promete arrancar risos dos presentes e cutucar a nostalgia que habita cada um de nós, por meio de uma produção de Gabriel Campos e Bianca Mendes, feita com poucos recursos, mas com muita criatividade e qualidade.
A ideia surgiu de uma conversa, tendo como base uma crônica autobiográfica sobre ‘A Última Geração Analógica’ da humanidade, que hoje tem uma faixa etária que orbita ao redor dos 30+, também conhecidos como millenials, um grupo de pessoas que conheceu o mundo antes e depois da internet, algo impensável para os seus filhos e netos.
Convidamos você e sua família para compartilhar esse momento de reflexão e nostalgia.
A ÚLTIMA GERAÇÃO ANALÓGICA [CRÔNICA]
Não sei se é algo típico do processo natural de amadurecimento ou até envelhecimento do ser humano, o ato constante de olhar para trás com certa nostalgia. Eu sempre fui uma pessoa nostálgica, mas de uns tempos pra cá tenho sentido isso mais intensamente, ainda mais olhando em contraste para o presente e sobre como as coisas costumavam ser diferentes.
Nasci em 1991, um ano que poderia ser um ano qualquer, mas não é... Em 91 a União Soviética caiu depois de décadas de antagonismos com o bloco capitalista liderado pelos Estados Unidos, e esse é um dos acontecimentos mais relevantes da história recente, o Brasil tinha acabado de sair de uma ditadura militar e a democracia ainda engatinhava, tendo em vista que a Constituição tinha apenas três aninhos.
E a minha infância foi vivida nesse restinho de século XX, há uns 35 anos atrás, mas que olhando o mundo como é hoje, parece que foi um século atrás, a minha adolescência foi nos anos 2000, mas isso é assunto para outra crônica.
O ponto é que a minha geração, esse pessoal aí na casa dos 30+ ou quase chegando lá, fomos a última geração analógica, nós vivemos num mundo antes da internet, dos smartphones, das redes sociais e dessa loucura toda que vemos hoje, e isso talvez seja algo inconcebível para as crianças e jovens, da mesma maneira que um mundo sem algumas das coisas que já existiam quando nascemos era inimaginável para nós.
Me lembro e sinto falta de tanta coisa que parecia não ter tanta importância no momento que vivi, pode até ser que realmente não tivesse, mas hoje tem, talvez por ser algo inalcançável que só posso visitar em memórias ou em conversas com outras pessoas que também viveram as mesmas coisas.
Eu lembro dos fliperamas lotados de crianças, algumas das quais sem dinheiro pra jogar, mas que iam só para ver outros jogarem, das locadoras de filmes com suas fitas VHS e a sessão de filmes pornôs que eu não podia entrar, dos discos de vinil e das fitas de música K7 que quando enganchavam dentro do toca fitas eram saco pra resolver.
Eu adorava passar trote nos orelhões ligando a cobrar para números que eu digitava aleatoriamente, também cheguei a ver o fim das fichas e a chegada dos cartões telefônicos. Eu gostava de ficar lendo a lista telefônica e me sentia importante quando eu achava o número lá de casa com o nome da minha avó.
A gente brincava no quintal, na rua até entardecer e marcava de se encontrar na biblioteca da escola para fazer os trabalhos, pegava algum livro relacionado ao assunto e ia ler. Outra coisa que fazíamos numa certa altura era furtar as revistas Playboy dos nossos irmãos, tios, primos mais velhos para vermos escondidos, morrendo de medo de sermos descobertos, e com razão, pois quando éramos pegos apanhávamos, mas era foda, deixavam as revistas embaixo do colchão ou lugares fáceis de encontrar.
Lá em casa tivemos uma TV antiga daquelas de tubo com tampo de madeira, que pesava muito e quando os vídeos games começaram a chegar, juntava uma renca de gurís na casa de alguém para jogar junto, quase sempre dava briga.
Ontem num surto nostálgico resolvi assistir ‘Conta Comigo’ um dos clássicos da Sessão da Tarde, é curioso como eu amo os filmes daquela época. Vinny e Thor largaram o que estavam fazendo e vieram assistir também, ficaram vidrados prestando atenção de um jeito incomum, me pediram até para fazer pipoca e suco.
Depois do filme botei um vinil para tocar enquanto arrumava a casa e refletia sobre essa nostalgia crônica que sempre tive, e sobre como eu gosto de mostrar essas coisas para os meus filhos, o Vinny conhece praticamente todos os principais jogos do Super Nintendo, pois joguei muito com ele por um tempo, não vou nem falar das músicas, já que lá em casa a educação musical das crianças é uma das muitas coisas que levo a sério.
Me sinto um velho quando falo ou escrevo sobre essas coisas, nada contra quem é velho, pois a maioria dos amigos e pessoas com as quais convivo são mais velhos que eu, amigos da minha idade só os da época de escola e mais jovens quase não tenho, confesso que tenho uma dificuldade imensa de me relacionar com a juventude do momento, é como se falássemos idiomas diferentes, no fim me sinto mais próximo dos que vieram antes de mim e dos que viveram essas coisas das quais falei.
Sou um poço sem fundo de nostalgia, memórias, saudade e histórias. Um homem de outro tempo, outra época, outro século, outra era... E quando me inundo disso tudo me apego a um adágio francês que adaptei à minha cosmovisão ateísta trocando o “louve à Deus’ por “faça amor!”, que ao fim ficou assim:
“Faça amor! Beba vinho! E deixe o mundo ser o mundo!”
Juan Ricthelly

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