ERIKA & EU
- Juan Ricthelly Vieira da Silva
- há 2 dias
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Uma crônica sobre a tarefa política mais importante da esquerda no DF em 2026
Por Juan Ricthelly

Me recordo de quando ouvi o seu nome pela primeira vez, era o nostálgico ano de 2002, um ano glorioso no futebol e na política, pois fomos pentacampeões do mundo e vimos um metalúrgico de origem popular ser eleito Presidente da República pela primeira vez na história do nosso país, até então governado por militares, doutores e oligarcas.
Eu tinha 11 anos, e embora não votássemos, achávamos que discutíamos política ao declarar apoio a um candidato ou outro, de acordo com o espectro ideológico de nossas famílias, minha família era Roriz, e eu por consequência também. A sala era dividida entre Magela e Roriz, e debates acalorados entre crianças aconteciam no CEF 10 do Gama, os dois lados se juntavam até para ver quem cantava o jingle de campanha mais alto que o outro, havia um certo equilíbrio, mas o “Sou azul, sou Roriz...” vencia na maioria das vezes.
Me recordo que um dia um amigo disse que os pais votariam numa tal Erika Kokay para deputada distrital, me recordei de um nome parecido no horário eleitoral que eu costumava assistir enquanto almoçava, mas essa foi a primeira menção direta que me lembro.
Anos depois, lá pra 2008, já no terceiro ano do Ensino Médio no CEM 02 houve uma audiência pública no Auditório do CG e depois uma solenidade em frente ao antigo Fórum do Gama, relativa ao novo campus da UnB que a cidade ganharia, os professores todos eufóricos com aquele momento, pois entendiam o significado da UnB vir até nós, não me empolguei tanto pois era só pra Engenharia, nunca fui muito bom exatas, humanas era onde eu voava com facilidade. Hoje eu entendo a importância daquele momento.
E nesse dia me recordo de alguns discursos sem muitos detalhes, foi quando vi e ouvi a então deputada Erika Kokay pela primeira vez, não lembro das palavras que foram ditas, embora não me esqueça da eloquência característica dela, e nunca me esqueci de uma citação que ela fez naquele dia, alguma coisa sobre gado, não lembrava a ordem das palavras até semana passada, só a palavra gado era nítida, até que toca uma música no som do meu carro enquanto eu dirigia para o trabalho, nem prestei atenção na música toda, mas quando ouvi aqueles versos... Eureka! Me lembrei:
“Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente.”
Disparada – Geraldo Vandré
E essa lembrança, perdida no fundo da gaveta de minhas memórias, me levou à tantas outras.
Uma das tantas audiências públicas sobre o Cine Itapuã, essa em 2013, ocorrida no Centro de Ensino Especial do Gama, a primeira que participei na vida. Na ocasião fiz uma fala sobre a questão, elogiada por alguns, dentre eles, a agora deputada federal Erika Kokay. Me senti feliz pelo elogio.
Me recordei de diversas situações e momentos em que a reencontrei, sempre em alguma mobilização, atividade cultural, pautas da comunidade em geral, mas houve um dia especificamente que me surpreendi como nunca, a encontrei em um lugar improvável.
Fui na saída de um amigo que estava iniciando no Candomblé, em um terreiro nos confins de Águas Lindas-GO, estou lá sentado observando a ritualística com uma curiosidade genuína, quando de repente a deputada Erika Kokay chega ao local...
Só consegui pensar: “Não acredito! Como essa mulher consegue estar em todos os lugares?”
Mas ali era diferente, eu não a enxerguei como uma deputada federal, era uma pessoa como eu. Chegou sozinha, sem assessores, sem toda a pompa do cargo que ocupa, sentou-se num canto e ficou humildemente observando a cerimônia.
Uma iguaria de camarão em folhas de mamona foi servida no ambiente, sem talheres, pratos, comíamos com as mãos mesmo... Eu já tinha uma admiração e respeito por ela, por todo o conjunto do que vi e acompanhei ao longo de todos esses anos, mas ali fiquei fascinado com aquela cena, pensando comigo que, aquele era é o último lugar do mundo onde eu imaginaria encontrar uma deputada federal, era quase uma cena de realismo mágico brasileiro, o tipo de coisa que só acontece aqui, que figura política interessante, foi o que pensei.
Esse ano temos uma eleição dura pela frente, Erika Kokay disputará o Senado com sujeitos políticos nefastos, tendo duas mulheres de extrema direita como adversárias diretas, e aqui faço uma previsão fácil, duas mulheres representarão o DF no Senado esse ano, ponto positivo para as mulheres na sua luta por direitos e ocupação de espaços de poder, mas aqui cravo outra afirmação dura: Representatividade sem consciência de classe, não me representa, não atende aos meus anseios e interesses políticos, não vai melhorar absolutamente nada na minha vida se duas mulheres de extrema direita forem eleitas para o Senado no DF esse ano, da mesma forma que nada mudaria positivamente se um dia tivéssemos um Congresso Nacional majoritariamente feminino, mas com mulheres de extrema direita, pra mim não basta ser mulher, negro, indígena, LGBTQIAPN+ sem que isso esteja conectado ao classismo.
Diante disso, me sinto na obrigação de fazer tudo o que estiver ao meu alcance, para que ela seja eleita. Considero a eleição de Erika Kokay para o Senado como a tarefa política mais importante da esquerda no Distrito Federal hoje, não que disputar o Buriti e aumentar a nossa representação na CLDF e na Câmara do Deputados não sejam tarefas importantes, obviamente são, mas eleger essa mulher hoje para mim é de longe a mais fundamental de todas, por sua história, pelo que representa e pela urgência política do momento, onde a extrema direita se mobiliza nacionalmente para dominar o Senado, destruindo as instituições por dentro, numa posição de poder privilegiada e fortalecida, com potencial de retrocesso massivo das poucas conquistas sociais, políticas e econômicas que conseguimos de 1988 pra cá.

Texto muito bom, Juan!! Conheço Erika de um tempo que nem ela imaginava entrar para a política partidária. Era bancária e eu a via nas lutas, também políticas, do já não tão combativo sindicato dos bancários. Excelente mulher, excelente na eloquência, Excelente ser humano. Estou contigo: vamos eleger Erika nossa senadora!!