A VILA


Hoje olho para minha rua, com todas aquelas casas formadas com muros altos e portões fechados, com meus vizinhos retraídos, que eventualmente cumprimento, mas não consigo me esquecer que nem sempre foi assim, não me esqueço que nós desbravamos aquele lugar, que assim como minha família que era pobre e passou dificuldades, os meus vizinhos também passaram por tudo isso, que todos batalharam muito para construir suas casas.


Havia solidariedade entre todos, de modo que às pessoas se visitavam para tomar café e conversar, se aconselhavam umas com as outras sobre os problemas que passavam, pediam açúcar, café, arroz, feijão e sal emprestado, quando acabava e não tinham para terminar o jantar ou o almoço, sofriam juntas quando alguém morria e até deixavam os filhos aos cuidados da vizinha ao lado ou da esquina quando tinham que sair, sem ter com quem deixar.

Os garotos que hoje são homens velhos, cresciam brincando juntos, as meninas também, iam as mesmas festas, namoravam, terminavam...


Todos se respeitavam e os que viram e viveram isso, até hoje se respeitam por saber disso tudo, que não foi nada fácil ir morar naquele lugar periférico no extremo oeste da cidade, quando ele era só um pedaço de mato, sem luz, água, esgoto e asfalto, tendo apenas um chafariz para todo mundo.


Essas coisas infelizmente foram se perdendo, os mais velhos ainda levam consigo uma porção disso tudo, os mais jovens sequer sabem disso, e um dia enfim, nada mais disso existirá, serão apenas pessoas que se conhecem de vista, vivendo suas vidas, pagando suas dívidas, sofrendo seus problemas sozinhas, vivendo em seus feudos de 6,5 metros de frente por 20 metros de profundidade, não fazendo a mínima ideia de como tudo aquilo começou.


E isso é um mal terrível, não conhecer suas raízes, não saber de onde veio e em razão disso desconhecer completamente o próprio destino.


Vi pessoas nascerem, morrerem, chegarem e se mudarem. Vi de perto o crescimento de algumas famílias, conheci muitos avós que nem mesmo seus netos que hoje brincam distraidamente em minha rua conheceram.


Infelizmente vi irmãos e irmãs quase se matarem alguns meses depois de seus pais morrerem, aqueles velhos que eram o pilar de suas casas que lutaram tanto para levantar, dedicando suas vidas, seu sangue e suas forças para seus filhos terem uma boa casa e se digladiarem dentro dela depois de sua morte, e isso dói para quem viu o começo disso tudo, dói pra caralho.


Vez ou outra quando chego bêbado de madrugada, sento no meio fio e penso nisso tudo, sinto falta da época em que não tínhamos nada, mas que nos tínhamos em alguma medida.


Lutamos, batalhamos incansavelmente, trabalhamos como burros de carga por salários de fome para sustentarmos nossas famílias e levantarmos nossas casas, depois trabalhamos mais ainda para mobiliar a casa e algum dia para colocar cor naquelas paredes cinzas da cor do cimento, trabalhamos para comer algo além do arroz e do feijão, trabalhamos até melhorar de vida e lembrar de tudo o que passamos com algum sorriso de satisfação no rosto, mas no meio disso tudo algo ficou para trás, algo foi se perdendo entre os dois muros levantados lado a lado, isolando acusticamente as brigas da casa ao lado quando se sucediam, algo morreu quando os bares que haviam foram se fechando, impedindo que aquelas pessoas que eram vizinhas tomassem uma cerveja juntas no bar do vizinho, algo morreu no momento em que tivemos que começar a atravessar a pista para comprar pão ou uma Coca Cola, ao invés de simplesmente atravessar a rua como fazíamos, e tantas outras coisas foram morrendo sem que nos déssemos conta de que algumas partes de nós mesmos iam morrendo juntas.


Fomos lentamente deixando de ser uma comunidade, de nos importar genuinamente uns com os outros, para nos convertermos num amontoado de belas casas, deixando de ser uma Vila, para sermos somente mais um endereço com CEP onde o carteiro entrega nossas cartas e os homens da água e da luz fazem a leitura do consumo mensal da CAESB e da CEB.


E por isso escrevo sobre isso, como uma tentativa talvez já fracassada desde o início de manter isso vivo, ao menos em palavras, para que não morra completamente, mesmo tudo isso já estando morto de fato.

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