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TEM ESQUERDA NO GAMA?


Por Juan Ricthelly


Algum tempo atrás, em uma publicação no Instagram, que falava sobre uma atividade política de um deputado distrital de esquerda no Gama, alguém comentou:

 

“Como assim?! Tem esquerda no Gama?”

 

Algumas pessoas e o próprio deputado responderam que sim, que havia. Nada contente, ele foi além e soltou uma pedrada:

 

“O Gama é a cidade mais reacionária do Distrito Federal!”

 

Como um gamense de esquerda que foi candidato a deputado distrital por duas vezes, por um partido de esquerda, defendendo pautas de esquerda e com uma atuação política e comunitária marcada por esse espectro ideológico, o meu primeiro ímpeto foi responder à provocação, me contive, mas o eco daquela pergunta ficou zunindo na minha mente, me causando reflexões profundas:

 

“Tem esquerda do Gama?”

 

“CLARO QUE SIM SEU FILHO DA PUTA!” foi a resposta mais bem elaborada que consegui produzir de imediato, mas sabemos que não basta, não é o suficiente, pois a pergunta tem algum sentido e a resposta não é tão simples, nem mesmo em caixa alta.

 

Tem esquerda no Gama! Mas depende do que você compreende como esquerda, se estamos falando de indivíduos que se identificam, se posicionam e votam como tal, temos sim! E não é pouca gente.

 

Nas eleições de 2022 na Zona Eleitoral 17 que corresponde a todas as sessões do Gama, num colégio eleitoral que conta com pouco mais de 100.000 pessoas, a população votou da seguinte forma (Fonte TSE):

 

1º Turno (101.705 votantes):

Bolsonaro: 52.849 votos

Lula: 38.403 votos

Tebet: 5.224 votos

Ciro: 3.981

Soraia: 530

Luiz D’Ávila: 479

Padre Kelmon: 81

 

 

2º Turno (103.007 votantes):

Bolsonaro: 60.354

Lula: 42.653

 

Obviamente que nem todo mundo que votou em Lula em 2022 se considera de esquerda, algumas pessoas votaram levando outros fatores em consideração. Numa eleição presidencial há menos opções de candidaturas, e é comum votar em um candidato como sinalização de rejeição a outro, o que esses números da eleição presidencial demonstram é a quantidade de votantes que definitivamente não são bolsonaristas e os que são. Possibilitando que tenhamos uma noção quantitativa da margem de diálogo possível dentro desse universo de pessoas.

 

Os outros cargos em disputa possuem mais opções de candidaturas e de partidos, pulverizando os votos. Para Deputado Distrital todos os partidos considerados de esquerda ou do campo progressista (PSOL, PT, PV, PCdoB, PSB, REDE, PDT, UP, PCO, PSTU) juntos tiveram 17.818 (92.056 votantes), pra Deputado Federal 18.183 (88.244 votantes), pra Governador 30.453 (94.572 votantes), pra Senador 22.810 (90.378 votantes). Esses números talvez demonstrem o tamanho aproximado da esquerda mais ideológica no Gama.

 

Diante disso, se esquerda é quem vota na esquerda, temos! Evidentemente uma minoria, mas temos!

 

Se por outro lado, considerarmos como esquerda alguém filiado a um partido político de esquerda, é importante analisarmos alguns dados. Segundo o TSE, a Zona Eleitoral 17 do TRE-DF que corresponde ao Gama tem 13.558 pessoas filiadas a algum partido político, dentro da esquerda e do campo progressista temos o seguinte:

 

PT: 1.886

PDT: 544

PSB: 352

PSOL: 308

PCdoB: 201

REDE: 37

PV: 37

UP: 12

PCO: 10

PCB: 5

PCO: 3

 

Total: 3.395 (25,04%)

 

Se consideramos pessoas filiadas a partidos de esquerda como Esquerda, mesmo sendo uma minoria dentro do universo de pessoas filiadas, então temos sim!

 

E aqui é importante fazer uma diferenciação necessária. Embora a filiação a um partido demonstre algum grau de engajamento político, um filiado não é a mesma coisa que um militante. Filiado é um conceito jurídico, enquanto militante é um conceito político ou ideológico. O filiado é alguém formalmente registrado em um partido, o que lhe dá o direito de votar e ser votado. O militante é a pessoa que atua ativamente nas bases, defendendo as ideias partidárias no dia a dia.

 

Como alguém que se considera um militante de esquerda que faz parte desse universo minúsculo chamado esquerda gamense, que teve a sua existência questionada, afirmo com toda tranquilidade e sem nenhum medo de errar:

 

O Gama não tem 3.395 militantes de esquerda! Sendo bem generoso no meu palpite, talvez tenhamos algo próximo de 50 pessoas, dentro desse universo de pessoas filiadas a algum partido de esquerda. Lembrando também que nem todo militante é necessariamente filiado a algum partido político.

 

Se tivéssemos 3.395 militantes de esquerda, o cenário político local seria outro. E a partir daqui talvez eu entre em uma parte da resposta que me dói, e que possivelmente vai doer em outras pessoas.

 

Se considerarmos Esquerda a esquerda organizada, que atua em grupos, com enraizamento territorial, trabalho de base constante para além de períodos eleitorais, formação ideológica de quadros políticos, que tenham o propósito de atuar de forma estratégica nas grandes questões da nossa comunidade, a resposta é não! Não temos!

 

Dos partidos de esquerda que possuem presença na cidade, temos o PT e o PCdoB que organizam anualmente alguma atividade nos dias do Trabalhador, da Mulher e da Consciência Negra, atuando mais ativamente em anos eleitorais, ou em uma questão ou pauta pontual, não havendo uma constância que se prolongue para além das situações mencionadas.

 

O PSOL, meu partido, lamentavelmente não existe por essas bandas, e o que vou dizer pode parecer arrogante da minha parte, mas não é! Dos 308 filiados da Zona 17, sou o único que atuo ativamente junto à comunidade do Gama e me identifico como filiado ao partido, conheço mais umas 5 pessoas que são filiadas, mas que possuem atuação mais centrada no Plano Piloto ou em mandatos parlamentares.

 

Já tentamos umas duas vezes criar um Núcleo de Base do partido por aqui, fracassamos! Se tentarmos uma terceira, é capaz que ganhemos o direito de escolher música no Fantástico. A dinâmica de um partido de tendências dificulta bastante essa construção, pois cada tendência adoraria ter o seu próprio Núcleo de Base, a construção do partido como ferramenta política fica em segundo plano, quem disse lá atrás que o átomo era a última fração indivisível da matéria é porque não viu um partido de esquerda por dentro, um partido dividido em micropartidos.

 

Nós existimos caro amigo que deu origem a todas essas palavras! Mas somos minúsculos, desorganizados, gastamos mais energia brigando entre nós do que combatendo os nossos reais inimigos, esquecemos como fazer um bom trabalho de base e desistimos de formar quadros da nossa cidade para disputar as eleições, mal conseguimos disputar as eleições para o Conselho Tutelar, de dez somente uma é de esquerda... A Direita gamense consegue encampar no mínimo uns 20 moradores da cidade para disputar uma eleição para deputado distrital, com votações relativamente expressivas que ajudam a eleger candidatos de direita de outras cidades, mas curiosamente eles são mais bairristas na hora de votar, num nível que na última eleição teve bolsonarista votando em mim, um candidato de esquerda do qual eles discordavam em muitas coisas, mas respeitavam a proposta de uma candidatura voltada para os grandes temas da nossa cidade. Já a Esquerda... Em 2018 fui o único, em 2022 também, e esse ano, lamentavelmente não teremos ninguém!

 

Então, se você considerar Esquerda como parte da capacidade da esquerda de uma cidade construir quadros locais, com a cara, a cor e o cheiro de um lugar, a resposta é não! Não temos!

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