TRABALHO ANÁLOGO À ESCRAVIDÃO NO GAMA

10 trabalhadores foram resgatados de propriedade na zona rural do Gama na tarde de Natal


Por Juan Ricthelly


Não sei como foi o natal de vocês, espero que tenha sido bom, pois o meu foi, ao lado de pessoas que amo, com crianças brincando na sala, comida na mesa, vinho na taça, saúde… E chego a me sentir mal ao saber que não foi assim para todos, que há exatamente alguns poucos quilômetros de onde estava com minha família, 10 trabalhadores trazidos do Piauí, passaram aquela noite longe de suas famílias e nas condições mais desumanas possíveis.


Segundo informações da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), os trabalhadores estavam sem água potável, alimentação, pagamento, condições de realizarem sua higiene pessoal e impossibilitados de deixarem o local, a refeição de natal deles foi arroz com farinha! Sem reclamações sobre o ponto peru, chester ou pernil, sem queixas sobre a uva passa no arroz, na maionese, no salpicão, na salada, ou na sobremesa… a ceia foi arroz com farinha!

Muitos de nós ficamos chocados ao assistir ‘Os 7 Prisioneiros’ com Rodrigo Santoro estrelando como o capataz de um ferro velho, que explorava jovens do interior e imigrantes atraídos por promessas de um bom trabalho, um salário digno e a possibilidade de ajudarem suas famílias… Era só um filme né?! Não! Não é!

A realidade é mais chocante que a ficção, pois é cruelmente real, é próxima, é aqui do lado, é na nossa cidade… Ao invés de ‘7 prisioneros’ aqui nós tínhamos 10, ao invés de um ferro velho no meio de São Paulo, era a porra de uma lavoura de hortaliças na zona rural do Gama… Que possivelmente vendia essa produção para os mercados e sacolões da região…


E a partir daqui vários questionamentos começam a pipocar na minha cabeça:

Será que alguma vez eu comprei alguma hortaliça ou qualquer outra coisa fruto de trabalho escravo do Rancho Paixão ou de qualquer outro?

Quantas vezes eu traguei um cigarro de palha da Souza Paiol enquanto contava uma piada ou história sem graça para um amigo no boteco?

Quantos churrascos eu fiz ou participei enquanto acendia a churrasqueira com o carvão de alguma carvoaria que escraviza pessoas e até crianças?

Quantas outras coisas eu comprei ou adquiri sem refletir sobre sua origem? Sobre quem são as pessoas por trás daquilo?


E as respostas doem! Pois por mais que não saibamos, que não tenhamos noção de nenhuma dessas coisas, a verdade é que somos parte disso tudo! Pois é o nosso dinheiro, que ganhamos honestamente, que compra o alface produzido por esses 10 trabalhadores sem natal do Piauí, o cigarro de palha da Souza Paiol produzido em fazendas por pessoas nas condições mais degradantes, o carvão que rouba a vida, a saúde e infância de outros seres humanos, a roupa produzida por imigrantes bolivianos, haitianos ou venezuelanos em algum galpão imundo, sem ventilação e luz…


O nosso dinheiro circula por aí, e muitas vezes não paga o salário das pessoas que produzem o que compramos, não vai pra previdência, pro FGTS, pro 13º salário, que não proporciona condições dignas de trabalho e vai parar na conta de algum figurão escravocrata, que vai usar esse mesmo dinheiro para apoiar politicamente pessoas que vão atacar os direitos da classe trabalhadora e defendê-los de terno e gravata.


Precisamos urgentemente refletir sobre o nosso papel e sobre o que podemos fazer para ajudar a mudar esse cenário, onde o natal, a liberdade e a dignidade seguem sendo negados para parte considerável de nossa população.


E essas situações estão acontecendo exatamente agora, aqui mesmo! Segundo o Ministério da Economia, nos últimos 24 anos, 803 trabalhadores foram resgatados de condições de trabalho análogas à escravidão no Distrito Federal e no Entorno, e infelizmente não é a primeira vez que o Gama aparece em manchetes de jornal relacionadas a esse tipo de situação, não esqueçamos que a Justiça do Trabalho do Distrito Federal condenou a Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia a pagar R$ 200 mil em danos morais e coletivos por submeter pessoas a esse regime desumano de exploração, numa chácara aqui da região.


E nesse natal, enquanto muitos de nós trocamos presentes ou simplesmente presenteamos nossas crianças, aqueles 10 trabalhadores passavam fome, não puderam tomar banho, vestir uma roupa limpa, sentir magia do natal, ou acompanhar as crianças discutindo sobre a existência ou não do Papai Noel… E para além deles, quantos ainda estão na mesma situação? Quantos não receberam a liberdade de presente de natal ao serem resgatados pelas autoridades na tarde do dia 25 de Dezembro?


Art. 149. Reduzir alguém à condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto:

Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa, além da pena correspondente à violência.


Enquanto o natal não for para todos, não será feliz natal!



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