OS JACOBINOS NEGROS

Leitura indispensável para compreender o Haiti nos dias de hoje


Esse ano foi o aniversário de 230 anos (1791) do marco inicial da Revolução Haitiana, que viria a ser finalizada em 1804, coincidentemente foi quando terminei de ler Os Jacobinos Negros de C. L. R. James em meio a uma viagem de fim de semana para o Parque Estadual da Terra Ronca no Goiás.


Eu sabia alguma coisa sobre a Revolução Haitiana, e sempre tive a curiosidade de me aprofundar mais no assunto, até mesmo para entender melhor a situação atual da República do Haiti, que vez ou outra aparece no noticiário


Também pelo fato do nosso país ter capitaneado uma "missão de paz" da ONU por meio das Forças Armadas, que chegou a ter o fascista do General Heleno como comandante, numa atuação controversa e cheia de denúncias de violações contra a população haitiana com protagonismo de militares brasileiros.


Parte da esquerda exalta essa atuação brasileira, como algo digno de se orgulhar, e até se ofendem quando a palavra "invasão" é mencionada nesse contexto. Eu pessoalmente lamento e repudio que o nosso país tenha tomado parte nessa história imperialista, que já contou com o protagonismo de nações como França, Inglaterra, Estados Unidos e Espanha.


Agora voltando ao livro.


Para quem não sabe, o Haiti foi a primeira nação independente da América Latina, conquistando a sua independência por meio de um processo que durou 13 anos (1791-1804), no contexto da Revolução Francesa, que teve a abolição da escravidão como um objeto de disputa feroz, em que pese a histórica Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, reconhecesse que todos os homens nascem livres e iguais, parte da burguesia escravocrata da França lutou para que esse princípio não se aplicasse aos negros.


Diante de séculos de crueldade, e com forte influência dos debates da França Revolucionária, os negros do Haiti se rebelaram contra os seus senhores para fazer valer a sua condição de seres humanos livres.


Sob a liderança de Toussant L'Ouverture o Haiti se converte no primeiro território a abolir a escravidão nas Américas, sem qualquer pretensão inicial de romper com a metrópole francesa, apenas para garantir o fim da escravidão.


Chegaram a expulsar os ingleses, que tentaram se aproveitar do momento de crise e a ocupar o lado espanhol, levando a abolição da escravidão para toda a Ilha Hispaniola, que hoje compreende o Haiti e a República Dominicana.


Com a ascensão de Napoleão Bonaparte, simpático aos pleitos da burguesia escravocrata, houve uma tentativa de restaurar a escravidão nas colônias, e uma expedição de 60 mil soldados foi enviada ao Haiti, tendo sido derrotada pelos ex-escravos, que preferiam morrer lutando a abrir mão de sua liberdade conquistada com tanto sacrifício.


Toussant era um homem genial, mas tinha um perfil conciliador, e embora fosse totalmente seguro em relação à abolição da escravidão, não o era quando o assunto chegava na independência do Haiti. Acabou se rendendo e baixando as armas em nome de uma paz que nunca existiu, e foi traído pelos franceses, que o enviaram para morrer num calabouço do outro lado do mar.


Diante disso, coube a outro negro assumir a liderança, Jean Jacques Dessalines, que deu o golpe final nas tropas metropolitanas, tornando o Haiti uma nação independente.


Pouco tempo depois, Dessalines ordenou que todos os brancos da ilha fossem exterminados, para acabar de uma vez com toda e qualquer possibilidade de retorno à escravidão.


As elites escravocratas americanas e europeias, ficaram chocadas e o temor de que o mesmo pudesse acontecer em outros lugares nasceu. Todo mundo tinha medo de virar o próximo Haiti.


É importante mencionar, que os haitianos receberam Simón Bolívar enquanto este estava exilado, o ajudando com dinheiro e armas, no que seria uma expedição decisiva para a independência do que conhecemos hoje como Venezuela, Colômbia, Panamá, Equador, Peru e Bolívia, com uma única condição, que a escravidão fosse abolida dos territórios libertos.


O Haiti sofreu um embargo econômico de 60 anos, tendo a sua economia arruinada e ainda teve que assumir uma dívida gigantesca com a França para ter a sua independência reconhecida, por meio de um empréstimo junto a bancos franceses, assumido posteriormente pelos Estados Unidos, com altas taxas de juros abusivos, só terminando de saldar o débito na década de 1940, tendo essa mesma dívida sido usada para justificar a invasão dos Estados Unidos entre 1915 e 1934.


Fora isso tudo, ainda se somam desastres naturais, como terremotos e furacões, que não cansam de devastar um país já devastado.


É uma leitura indispensável para compreender o Haiti de hoje, uma nação com uma história formidável e inspiradora, que teve o seu destino e futuro sabotados pelo imperialismo capitalista, o Haiti é um país fodido hoje, porque ferraram com o Haiti ao longo da história, e o Brasil infelizmente participou disso.

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