NÃO HOSPEDAMOS CRIANÇAS


Em 2017 fizemos uma viajem em família ao Rio de Janeiro, eu, Camila e o Vinny, que tinha dois anos na época, foi tudo muito lindo, Copacabana, Ipanema, Cristo, Corcovado, Arpoador, Vidigal, Jardim Botânico... Depois cansamos de ficar no Rio, alugamos um carro e fomos parar lá em Paraty, Angra dos Reis e Ilha Grande... Que foi onde mais gostei, e onde aconteceu um fato que me incomodou profundamente, ao ponto de até hoje refletir sobre.


Tínhamos acabado de chegar em Ilha Grande e não tínhamos agendado hospedagem, então saímos batendo de porta em porta nas pousadas, encontramos uma linda e por um preço acessível, com uma decoração meio nova era, um pessoal com uma aparência mística e espiritualizada, com um sorriso bonito, mas tinha um porém, que estava escrito em letras bem grandes na entrada:


NÃO HOSPEDAMOS CRIANÇAS


Eu olhei pra cara da Camila, ela olhou pra minha de volta numa expressão de incredulidade, e eu disse:


— Não acredito que isso é real! Vou ter que perguntar!

— Não! Deixa isso pra lá! Vamos procurar outra...

Já era tarde, entrei com uma cara fechada e o Vinny no colo, o pessoal da recepção conversava alegremente com um casal.


— Boa noite! – com aquele sorriso de comercial da Colgate.

— Boa! Deixa eu perguntar uma coisa pra vocês...

— Claro! – sorrisinho da Colgate mantido.

— Aquele aviso ali é real? Vocês não hospedam crianças aqui?


O sorriso da Colgate sumiu na hora, a conversa acabou com casal, uma névoa de constrangimento se instalou no ambiente.


— Infelizmente não... – sorriso sem graça e sem Colgate.

— Por quê?

— As vezes pessoas querem descansar...

— Qual o problema de vocês? Nunca foram crianças não?


Deram um sorriso sem graça como respostas, dei as costas e saí puto da vida, com ódio no coração, minha vontade era de explodir aquela pousada, me senti tão agredido com aquela situação absurda que não sei nem como descrever.


Pouco depois encontramos um quarto bom, num lugar onde os donos tinham crianças, davam doces para o Vinny, brincavam com ele, e ainda deixavam ele brincar com os brinquedos dos seus filhos.


Alguns anos depois tive a felicidade de ser um dos organizadores do 4º Encontro Nacional Ecossocialista do PSOL, que ocorreu aqui no Gama, e uma das coisas que debatemos e por fim resolvemos materializar, foi a criação de um ambiente voltado para as crianças durante o evento para que as mães e pais pudessem participar com tranquilidade, e deu muito certo, vez ou outra as crianças escapuliam e roubavam a cena, as pessoas se revezavam para cuidar delas.


Num dado momento, fiz uma fala sobre como alguns espaços se tornam hostis às crianças simplesmente por ignorarem a existência delas, o que inviabiliza a presença de seus responsáveis, que muitas vezes gostariam de participar e contribuir de alguma maneira, mas não conseguem em razão disso.


Maternidade e paternidade não deveriam serem empecilhos para qualquer coisa, principalmente para a participação política, comunitária e cultural das pessoas que resolveram assumir essa importante missão de vida, e acredito que todo e qualquer espaço que pretenda promover alguma mudança significativa na sociedade não deve ignorar as crianças.


Pessoalmente eu nunca aceitei que um dos aspectos mais belos da minha existência me impedisse de participar e atuar, meus filhos já participaram de greve, ato político, audiências públicas, protestos, reuniões, sarais, ensaio de teatro... Já fiz fala no microfone com o Vinny no colo, já fiz mamadeira com a reunião rolando, troquei fralda na mesa com todo mundo vendo, já interrompi minha fala pra acalmar menino aos berros... E esse tipo de coisa tem que ser normalizado e estimulado até, tem que ser comum criança correndo de um lado pro outro, dando gargalhada, chorando e pedindo atenção, enquanto discutimos conjuntura política, os problemas da comunidade ou o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels.


Politicamente devemos repudiar todo e qualquer comportamento ou postura que discrimine, proíba ou segregue crianças, não é de forma alguma tolerável e tem que ser combatido desde já.

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