EU SOU PORQUE NÓS SOMOS



Fazer parte de uma comunidade é algo que nos possibilita viver alguns detalhes, que não seriam possíveis sem toda a carga emocional de ter vivido a vida inteira no lugar onde nasci, onde fui amigo de infância dos meus vizinhos, entrando e saindo da casa de todo mundo, brincando na rua, se encontrando na igreja, indo nas festas de aniversário...


Todas essas coisas e tantas outras, fazem parte desse sentimento de pertencimento, que acaba se convertendo em parte essencial de quem somos como pessoa.


Hoje ao ir almoçar com a minha avó, no dia do seu aniversário, saio do carro e vejo um vizinho fazendo uma rede de pesca à mão, imediatamente me lembrei do pai dele, que também era o avô do meu amigo de infância mais próximo, que morreu há uns 20 anos.


Olhei pra ele e disse: "Nossa! Você fazendo essa rede me lembrou do seu pai!"


Ele sorriu pra mim concordando, sorri de volta, e me veio um turbilhão de lembranças da minha infância, do portão de grade que não existe há anos, e dava pra ver todo o quintal, onde eu e Bruno brincamos tantas vezes, do Seu Bill fazendo suas redes de pesca, da barba dele e da Caravan marron metálica que ele tinha.


Vou caminhando e antes de entrar em casa olho pra trás, observo o portão da casa da Dona Constância e quase choro, me lembrando das conversas, da gargalhada gostosa que ela tinha e de sempre dizer depois de me abraçar respirando fundo pra sentir o meu perfume:

"Que menino cheiroso!"


E vivo tendo e sentindo esses insights, em cada rua, esquina, praça e lugar... E me sinto feliz por isso, por esses momentos, essas pessoas que fazem parte da minha vida, essas emoções e como tudo isso é parte inseparável de mim.


Em nenhum lugar do mundo algo assim é possível. Aqui eu sou eu de um jeito que não sou em nenhum outro lugar, cidade ou país.


Termino de almoçar, volto pro trabalho e caminhando pela rua até o carro vou lembrando da Dona Geralda reclamando da bola que batia no portão, da vendinha da Dona Dorotéia, do Bob, o cachorro da Dona Isabel, do Nicolau, o periquito bravo que a Dona Angelina me deu de presente, do Careca me levando na cacunda, do fliperama no Bar da Dona Raimunda e do Bar do Seu Inácio...


"Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade, eu não sei..."

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