ERA SÓ UMA FOTO

Diários de Viagem #3

Por Juan Ricthelly


Ontem fui assistir Matrix, amei e depois vou escrever sobre.

Mas uma coisa boba ao sair do cinema me despertou um gatilho inesperado.

Um grupo de amigas esperava na fila pra assistir Homem Aranha, do nada me olham, achei estranho:

— Moço! Você pode tirar uma foto da gente?

Já com o celular apontado para mim, como se fosse uma arma.

Num primeiro instante fiquei sem reação, sem saber o que responder, imediatamente me recordei da minha viagem ao Peru em Janeiro deste ano.

Estava em Machu Picchu, realizando o sonho de conhecer aquele lugar incrível, quando um casal de peruanos me aborda:

— ¡Hola! ¿Podrias nos sacar una foto?

— ¡Sí! - respondi com um sorriso.

Fizeram a pose, tirei algumas fotos, o guia me chama para tirarmos uma foto do grupo todo, me assusto e o celular cai com a tela virada para o chão...

— Puta que pariu! - foi a primeira coisa que eu disse.

Todo mundo fazendo aquela cara de "que merda", o dono do celular e sua namorada olham pra tela toda trincada, tentam ligar o aparelho sem sucesso, tiramos a foto em grupo e vou imediatamente conversar com os dois.

— Fiquem tranquilos! Vou pagar por isso!

Obviamente que eles não acreditaram, eu também não acreditaria, afinal eu era um turista, sem residência fixa, que por acaso estava no mesmo grupo deles, passei o meu celular, meu Instagram, meu nome completo e eles não desgrudaram de mim, queriam até que volta para Cusco me hospedar junto com eles, como garantia, para tranquilizá-los concordei.

Todo mundo se arrumando para partir de Águas Calientes rumo à Cusco, nos desencontramos no meio disso, pois eles iriam de trem, e eu tinha uma caminhada 11 km com uns 30 kg nas costas, e os pés estourados da caminhada do dia anterior.

Depois de chegar no ponto de embarque atrasado, para a minha sorte o transporte também estava atrasado, chegando uns 30 minutos depois, e partindo numa viagem de 6 horas em meio à Cordilheira dos Andes e suas estradas da morte até Cusco. Chegamos lá por volta das 22h.

Quando liguei o celular que esteve a maior parte do tempo sem sinal, vejo um milhão de mensagens e telefonemas do casal desesperado, imediatamente respondi, passei a minha localização caso quisessem ir até lá, mas no fim combinamos de nos encontrarmos na Plaza de Armas pela manhã.

Nos encontramos e o prejuízo era de 400,00 soles, o equivalente a R $600,00. E nessa hora fui muito franco com eles:

— Olha! Eu lamento que isso tenha ocorrido, peço desculpas, e vou pagar pelo prejuízo. Mas não tenho como pagar isso tudo de uma vez, pois estou viajando, tenho que comer, me hospedar, beber, pagar transporte... Estou longe do meu país. Então nós vamos fazer o seguinte: Pago metade agora e o restante quando voltar ao Brasil, é o que eu posso fazer! Sei que vocês não me conhecem, que eu posso simplesmente desaparecer, mas vocês vão ter que confiar em mim!

Concordaram, fiz um saque num caixa eletrônico próximo à praça pelo meu cartão de crédito e me despedi deles.

Depois passei uns dias de cama por conta do mal da altitude (soroche) e fui pra Puno conhecer o Titicaca, chegando lá o lago estava fechado e fui pra Arequipa na manhã seguinte.

De Arequipa comecei a planejar a minha volta, fazer o teste de covid obrigatório, comprar uma passagem barata até Lima e tudo ia bem, até que...

Fui barrado no aeroporto de Arequipa, por não ter feito o check in online e por estar com o meu violão, para embarcar precisava pagar 100 soles pelo check in e mais 100 pelo violão. Eu tinha esse dinheiro? Não!

O limite do cartão de crédito tinha ido embora, com despesas e o pagamento de parte do celular, então eu me fodi todinho, perdi o voo para Lima, em razão disso perdi o voo pro Brasil e a partir daí foi uma correria desesperada com a ajuda de família e amigos para conseguir ter dinheiro e voltar pra casa.

Fiquei 5 dias a mais do que o planejado no Peru, tive que fazer outro teste de COVID, passei o meu aniversário sozinho, levei um golpe de R$ 500 de presente no dia em que completei 30 anos, levei outro golpe do Uber quando cheguei em SP, e voltei pra Brasília de ônibus. E sim, paguei o restante do celular quando cheguei em casa, depositei o que faltava via Western Union.

Essa desgraça toda, por ter derrubado a porra de um celular lá em Machu Picchu, desde então nunca mais havia aceitado pegar o celular de ninguém para tirar fotos.

Então quando aquelas meninas sorridentes me pediram pra tirar uma foto nelas na fila do cinema no Santa Maria Shopping, isso tudo me veio à cabeça.

— Claro! Tiro sim!

Peguei o celular com a mão tremendo, segurando com toda a firmeza e atenção, tirei várias fotos morrendo de medo, entreguei com cuidado e fui embora aliviado. Era só uma foto!


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