A VERDADE NO PAÍS DA PÓS-VERDADE


Por Juan Ricthelly


Wagner Moura declarou em uma entrevista ao comentar sobre o Brasil que “a verdade acabou, a verdade não importa”, e isso com as emoções transbordando em sua face desolada enquanto fazia tal afirmação. Acredito que assim como eu, muita gente talvez tenha acenado a cabeça em sinal afirmativo sem nem perceber, por compartilhar desse sentimento angustiante e factual de que a verdade acabou e não importa mais o que ela seja.


Em plena Era da Informação, onde a maioria esmagadora das pessoas estão conectadas quase que 24 horas por dia, tendo acesso a um conteúdo inimaginavelmente maior que o da antiga Biblioteca de Alexandria, podendo facilmente consultar sobre qualquer assunto, ainda assim a verdade foi perdendo espaço, se convertendo em ilhas perdidas num oceano imensurável de informações.


Se a democratização do acesso às informações não foi capaz de consolidar e universalizar a verdade, nos cabe questionar às razões disso e voltar às origens que fundaram as nossas concepções de verdade, antes que elas se perdessem.


E nesse ponto, sou forçado a voltar numa lição que o meu querido professor Mauro Serpa sempre mencionava em suas aulas na minha época de faculdade, onde ele sempre dizia que a nossa concepção de verdade vinha de três raízes etimológicas, que eram: grega, latina e hebraica, tendo cada uma delas suas peculiaridades.


“Em grego, verdade se diz aletheia, significando: não-oculto, não-escondido, não-dissimulado. O verdadeiro é o que se manifesta aos olhos do corpo e do espírito; a verdade é a manifestação daquilo que é ou existe tal como é. O verdadeiro se opõe ao falso, pseudos, que é o encoberto, o escondido, o dissimulado, o que parece ser e não é como parece. O verdadeiro é o evidente ou o plenamente visível para a razão.


Em latim, verdade se diz veritas e se refere à precisão, ao rigor e à exatidão de um relato, no qual se diz com detalhes, pormenores e fidelidade o que aconteceu. Verdadeiro se refere, portanto, à linguagem enquanto narrativa de fatos acontecidos, refere-se a enunciados que dizem fielmente as coisas tais como foram ou aconteceram. Um relato é veraz ou dotado de veracidade quando a linguagem enuncia os fatos reais.


Em hebraico verdade se diz emunah e significa confiança. Agora são as pessoas e é Deus quem são verdadeiros. Um Deus verdadeiro ou um amigo verdadeiro são aqueles que cumprem o que prometem, são fiéis à palavra dada ou a um pacto feito; enfim, não traem a confiança.


A verdade se relaciona com a presença, com a espera de que aquilo que foi prometido ou pactuado irá cumprir-se ou acontecer. Emunah é uma palavra de mesma origem que amém, que significa: assim seja. A verdade é uma crença fundada na esperança e na confiança, referidas ao futuro, ao que será ou virá. Sua forma mais elevada é a revelação divina e sua expressão mais perfeita é a profecia.


Aletheia se refere ao que as coisas são; veritas se refere aos fatos que foram; emunah se refere às ações e as coisas que serão. A nossa concepção da verdade é uma síntese dessas três fontes e por isso se refere às coisas presentes (como na aletheia), aos fatos passados (como na veritas) e às coisas futuras (como na emunah). Também se refere à própria realidade (como na aletheia), à linguagem (como na veritas) e à confiança-esperança (como na emunah).” (CHAUI, 2000)


Diante disso, com base nas origens do que entendíamos como verdade, se faz importante analisar o nosso presente, onde uma eleição presidencial foi marcada do começo ao fim pela propagação sistemática e profissional de mentiras e informações falsas, que foram elevadas à categoria de fatos incontestáveis sem nenhuma reflexão, simplesmente em razão de quem dizia e contra quem se dizia.


Até hoje há quem acredite piamente que o livro apresentado por Bolsonaro na bancada do Jornal Nacional durante às eleições fazia parte do ‘Kit Gay’ que seria distribuído para crianças em escolas públicas, mesmo havendo toneladas de conteúdo afirmando e comprovando categoricamente que ele mentiu.


Ainda há quem acredite que:


Adélio Bispo, o agressor de Bolsonaro, é filiado ao PT e apareceu numa foto com Lula, mesmo não havendo absolutamente nada que comprove isso.


A foto da falecida atriz Beatriz Segall com um hematoma no rosto, após ter caído na rua, era uma senhora idosa agredida por ser eleitora de Bolsonaro.


Fernando Haddad defende o incesto em um de seus livros e que chegando ao poder legalizaria a pedofilia ou soltaria todos os bandidos. E isso sem mencionar em qual página do livro, declaração ou trecho do plano de governo essas afirmações poderiam ser verificadas.


Marielle era mulher de um traficante e que foi assassinada em razão do seu envolvimento com o narcotráfico. Com direito à compartilhamento de desembargadora (Marília Castro Neves) e deputado federal (Alberto Fraga), que tiveram que se retratar depois.


A filha da Dilma era dona da Havan, mesmo havendo nota da própria empresa negando o fato e declarações agressivas do Véi da Havan em relação ao PT. Nessa daqui eu publiquei a própria nota num grupo, postei tudo o que o Véi da Havan dizia sobre, e ainda assim teve gente que não acreditou, detalhe, era no meu grupo de doutorado, com magistrados, advogados e pessoas em tese instruídas e com formação.


Lembro inclusive de ter sido marcado por um tio numa publicação onde uma plantação de mamão era destruída por tratores, na legenda dizia-se que era uma ação do MST numa fazenda, não havia nenhuma bandeira ou qualquer coisa que indicasse isso, mas ainda assim havia milhares de comentários raivosos e agressivos em relação ao MST. Fiz uma pesquisa rápida e simples, e descobri que se tratava de uma erradicação de praga que havia se proliferado pela plantação, demonstrei outros vídeos explicando inclusive o nome científico da doença e todos os detalhes, mas ainda assim a postura agressiva em relação ao MST persistiu.


Ao longo desse processo perdi a conta de quantas vezes tive que explicar, apresentar fatos, provas, estudos científicos, indicar fontes e quase ter que desenhar, até mesmo para pessoas com nível superior, pós-graduação, mestrado e doutorado, que muitas coisas que elas estavam propagando, não eram verdade, e ainda assim elas se recusavam a acreditar, simplesmente porque era a minha palavra contra a do Bolsonaro, do cara do Youtube ou do vídeo do Whatsapp.


Eu havia chegado num nível de desgaste tão grande com essa situação, que já tinha separado no meu computador uma pasta com todas as provas e conteúdo que havia encontrado para rebater cada mentira propagada, e elas estavam por toda parte, em todos os grupos, em cada timeline, meme ou status, por meio de meus familiares, vizinhos, amigos, colegas de escola, faculdade, doutorado e trabalho...


Era uma rede enorme de mentiras, eu sabia que existiam outras pessoas como eu, comprometidas em combatê-las, perdendo horas inteiras naquela luta desigual. Hoje eu vejo que não importaria quanto nós fossemos, sempre seríamos um punhado de Davis contra um exército inteiro de Golias, ou bando de Hércules cortando cabeças de um bando de Hidras que a cada corte nasciam duas no lugar...


Eu poderia muito bem dizer que perdemos, e sim, perdemos, perdemos feio, mas a nossa derrota é insignificante diante da maior derrotada nessa história toda, a verdade.


Até porque agora, o grupo vencedor dessa batalha, se encontra encastelado no poder, com acesso à canais oficiais de informação, podendo nomear e exonerar quem bem quiser e entender, inclusive declararam guerra à educação e às universidades públicas, que são inegavelmente o maior polo produtor de conhecimento científico do país, conhecimento esse fundamental para o embasamento da verdade, ou seja, usaram a mentira para chegar ao poder, e estando no poder se demonstram comprometidos em destruir os pilares de sustentação da verdade, moldando a realidade e concepção de verdade das pessoas à sua imagem e semelhança.


Em 2016 a palavra ‘pós-verdade’ foi definida como a palavra do ano, acho que erraram no alcance, talvez seja a palavra da década ou do século, para quem não sabe o seu significado, resumidamente é a situação onde os fatos não importam diante das crenças pessoais e do apelo emocional, e por esse ângulo podemos afirmar sem nenhum medo de errar que nos convertemos no país da pós verdade, de modo que poderiam até mudar o lema da bandeira para “Pós-Verdade e Progresso”, não se esquecendo que até mesmo a concepção de progresso do governo atual é questionável.


“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”


9 de Junho de 2019

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