A CARTA DE AMOR


Escrever é algo que sempre gostei de fazer, desde que aprendi. Eu sempre vivia apaixonado por alguma colega de classe, minhas paixões infantis costumavam durar um ano no máximo, eu nunca era correspondido, mas de alguma forma eu parecia gostar de sofrer por amor, gostava de sentir aquela agonia que dava na sexta, por saber que só a veria outra vez na segunda, e o fim de semana era um suplício, que oscilava entre ficar pensando sobre o que ela poderia estar fazendo, e a imaginar momentos que jamais viveríamos.


A paixão daquele ano era uma garota chamada Juliana, era alta, magra, tinha longos cabelos castanhos, lábios carnudos e um belo sorriso levemente dentuço. Eu tinha 11 anos e cursava a 5ª série do ensino fundamental no CEF 10 do Gama. 5ª – 4 era minha turma.


Todos sabiam que eu gostava dela, ela inclusive, nunca fui muito bom em esconder sentimentos, a olhava a todo instante e desviava o olhar quando ela notava, falava com ela raramente e nas poucas vezes em que falava, travava completamente.


A verdade é que eu era péssimo com garotas, e muitas paixonites tiveram que ser devoradas nas fogueiras da desilusão amorosa para que isso mudasse efetivamente, foi um processo longo.


Mas resolvi criar coragem e declarar explicitamente o meu amor por ela, e fiz o que sempre fazia quando era tomado por esse ímpeto, escrevi uma carta de amor.


De: Juan

Para: Juliana


Não me lembro exatamente do que escrevi, mas sei que era algo dramático, onde certamente eu falava de sua beleza exuberante, de como eu me sentia e por fim, que queria namorá-la ou algo assim.


Caprichei na letra, desenhei com todo o cuidado e atenção para não errar, comprei um envelope branco, um cartão pequeno com corações e uma mensagem curta. Procurei Marcela que era sua amiga e pedi que entregasse a carta, isso era uma sexta, queria que ela passasse o fim de semana pensando nisso.


E o pensamento de como ela reagiria na segunda me consumiu, eu criava expectativas facilmente e do nada, e já planejava o nosso romance, treinando o discurso que faria ao pai dela quando a pedisse em namoro, imaginando beijos, abraços e caminhadas de mãos dadas na escola na hora do intervalo.


O final de semana demorou passar, mas passou. Sai de casa empolgado de bicicleta, me sentindo um cavaleiro montado em seu corcel, indo encontrar a sua amada em algum castelo, que me receberia com um beijo.


Pobre garoto, não fazia ideia do que o aguardava.


Quando cheguei na escola, já haviam dois colegas no portão que anunciaram a minha chegada com um sorriso malicioso aos outros:

— Ele chegou! Ele chegou!

Fiquei sem entender, mas por pouco tempo. A turma inteira estava no pátio, e todos seguravam o riso quando conseguiam.

— E aí jovem apaixonado! – disse alguém

Gargalhadas e mais gargalhadas. E ainda não era o pior, o pior estava por vir.

Começaram a declamar a minha carta em voz alta para todos ouvirem, dando ênfase exagerada em alguns trechos, todos se acabavam de rir, enquanto eu só queria sumir. Tentei inutilmente pegar a carta, não deu, e a leitura seguiu, foi quando vi que Juliana estava no meio daquela muvuca rindo junto com os outros, aí o meu coração trincou.

Porra! Se não quisesse era só rasgar, jogar fora, ignorar e me desprezar depois, não precisava ter feito aquela cena toda, que maldade. Depois de terem tirado cópia da minha carta e distribuído para todos que quiseram, me devolveram a original, que rasguei com toda a raiva do mundo.

Leram mais algumas vezes, compartilharam com alunos de outras turmas, em um dado momento alguns já declamavam de cabeça alguns trechos ao me verem passar pelos corredores ou ao chegar, depois de algum tempo esqueceram de mim, mas o estrago já estava feito, a escola inteira sabia da minha paixão por Juliana, a amei por mais algum tempo, mas desiludi, não havia mais tanta graça amar alguém publicamente, pois agora todos prestavam atenção até no modo que eu a observava ou como me portava perto dela.

Os anos passaram, certamente muitos de meus algozes já não lembram mais disso, e um dia encontrei Juliana na triagem para receber medicação no Hospital Maria Auxiliadora, estava grávida e ainda mais bela do que eu me lembrava, ela era uma das enfermeiras, nossos olhares se cruzaram rapidamente, acho que ela não lembrou de mim, ou se lembrou, e assim como eu não teve coragem de falar nada, por não ter nada a dizer, melhor assim, qualquer coisa depois do ‘oi’ poderia ficar constrangedora.

Dei um sorriso discreto para mim mesmo, enquanto a observava trabalhar, pensando comigo, que um dia eu já fui tremendamente apaixonado por aquela menina, que hoje é uma mulher.


CRÔNICAS GAMENSES - Histórias de uma cidade que ama

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